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31/03/2017

Marcos Piangers, esse papai é TOP!

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Marcos nasceu em Florianópolis, no Brasil, formou-se em Jornalismo, escreve, faz rádio e foi repórter da Rede Globo até há bem pouco tempo.

Marcos é pai de duas meninas, a Anita com 11 anos e a Aurora com 4, a paternidade trouxe-lhe uma experiência que ele não conhecia, sem referências por não ter tido um pai presente, Marcos teve de desbravar um terreno desconhecido e acabou por encontrar um novo sentido para a sua vida. Ser pai transformou-se numa viagem de auto conhecimento, de profundidade e de exaltação, Marcos começou a escrever os seus pensamentos, as suas histórias e tornou-se no Papai mais conhecido do Brasil. Com mais de 1 milhão de fãs no facebook e 150 mil exemplares dos seus livros vendidos, Marcos apresenta palestras altamente inspiradoras e inovadoras tendo sempre como base a sua experiência e a coragem de ter aberto o seu coração para os outros.

Marcos Piangers está em Portugal para apresentar o seu livro O pai é top e eu tive o enorme privilégio de o conhecer.

Nheko: Como é que aconteceu este teu debruçar sobre o exercício da Paternidade?

Marcos: Na nossa sociedade os homens não são preparados para ser pais, somos preparados para pagar as contas, treinados para pegar o maior número de mulheres, (às vezes de forma violenta até), e depois pagar as contas da família e isso é realmente um grande equivoco na nossa formação.

Desde que a minha primeira filha nasceu eu fui entendendo algumas coisas que estão completamente erradas na nossa sociedade, eu andava muito com ela, dava banho e fazia o que havia para fazer, então comecei a ouvir dos meus amigos: ” Sua mulher manda em você?!?!”, e eu ficava perplexo com isso, “Como assim, manda em mim???? O que é que isso quer dizer? Eu sou o Pai, isso é meu também, é a minha vida!” E daí surgiu um questionamento que foi ganhando espaço dentro de mim, aí eu comecei a apontar, a escrever e passado algum tempo uma amiga leu e disse que queria publicar no jornal.
Eu encontrei um público enorme, estes são assuntos muito íntimos e tocam muita gente, um homem falando nisso é fora do normal, tem muita gente que acha tudo isto um total absurdo, tem muitos que acham este não é de todo o nosso papel e a nossa sociedade na verdade não incentiva que o pai seja pai.

Nheko: O facto de teres crescido sem um pai presente foi essencial para este teu caminho?

Marcos: Todos os dias da minha vida eu lamento não ter tido um pai presente, eu preferia tanto ter tido um pai aqui, um pai amoroso e carinhoso que pudesse ser para mim uma referência. Por um tempo eu também fui um pai que não percebia o meu papel, que não entendia que o facto de valorizar a minha mulher fazia de mim um pai melhor, que se a minha relação está boa isso vai-se reflectir em toda a minha vida em família, na minha relação com as minhas filhas. Eu tive de adquirir todas estas percepções sozinho porque eu não tinha um modelo, tive de construir o meu com a ajuda da minha mulher, da minha mãe e até das minhas filhas, foi no verdadeiro exercício da paternidade que me fui construindo como pai, e isso porque eu não tinha referências para seguir. Se eu tivesse tido um pai presente tinha sido tudo muito melhor, tinha tido uma inspiração, um modelo.

Nheko: A tua mãe é um modelo, ela é uma grande inspiração para ti?

Marcos: Minha mãe é muito importante, para mim ela é Deus. Eu escrevi isto num texto e muitos religiosos ficaram zangados comigo, mas, para mim, Deus é a nossa mãe, é quem cuida de nós na terra ou no céu, ela cuida de nós para sempre.

Eu durante muito tempo dediquei a minha atenção, tempo e a minha emoção na procura de um pai que não existia em vez de me focar na mãe que estava lá, quer era presente e eu arrependo-me muito por isso.

Nheko: Tiveste uma infância e uma adolescência atribulada, complexa?

Marcos: Eu tive um período em que era muito agressivo, na adolescência eu usava o humor para ser totalmente corrosivo e ácido, no fundo era para me proteger mas eu vivia atacando. Agredia para mostrar a minha opinião sobre o mundo, sobre o que eu achava que estava errado. Mas depois com o tempo eu fui percebendo não é com violência que se conseguem as coisas, é exactamente o contrário, é com empatia e afecto que você muda o mundo, é criando relação, é sendo próximo que você consegue provocar a mudança à sua volta. Ser agressivo e prepotente é um caminho talvez mais rápido e facilitado, todo mundo te teme mas na verdade você não está mudando nada.

Nheko: Falar da sua vida é uma experiência muito intensa, como é que geres isso dentro de ti?

Marcos: Quando você se abre, quando fala dos seus sentimentos das suas fragilidades você fica exposto, aí é difícil, é sensível, falar sobre a sua vida é muito íntimo, é muito caro.

Toda a semana eu penso em parar de fazer isto, sempre que ponho cá fora um texto meu eu temo que alguém seja desrespeitoso com a coisa mais importante da minha vida, que alguém nos agrida, que nos mal trate gratuitamente; a internet tem muito isso, e isso torna este processo ainda mais dolorido, torna-me muito vulnerável.

As palestras que eu dou, contar que a minha mãe teve câncer, que cresci sem saber quem era meu pai, isso é dureza e eu penso muitas vezes em deixar de o fazer mas depois há a outra parte que é o impacto que isso tem na vida dos outros, a capacidade transformadora que isso tem, eu recebo milhares de feedbacks incríveis e é isso que me faz continuar. E não são só os pais, são as mães também, são todos os que ficaram, são os que por isto resolvem voltar, procurar… há um sem número de histórias maravilhosas resultantes deste trabalho.

Nheko: É a sociedade que impõem as grandes diferenças como o papel de mãe e pai é vivido?

Marcos: A sociedade coloca um peso enorme sobre as mulheres, a mulher tem de ser boa mãe, profissional, esposa, bonita, com um corpo fantástico, é muito, é demais. A minha mulher fala que a maternidade é como um sentido obrigatório, a mulher não pode voltar para trás e isso leva a muito sentimento de culpa, a muito estado de depressão. E isso tira também ao pai a oportunidade de ser pai.

A minha mulher ficou muito nervosa quando engravidou da primeira vez, só hoje eu entendo porquê verdadeiramente. Na altura ela ia ser contratada para dar aulas numa universidade e já não foi, houve uma série de embates que a gravidez provocou na vida dela, ao nível físico, psicológico, social, profissional, mudou tudo! E nós os homens não conseguimos enxergar nada, a minha mulher me falava que tudo tinha mudado na vida dela e eu duvidava, eu questionava: -“Será????? Não! Não mudou tanto assim…”, eu precisei ter duas filhas, de viver muita coisa para chegar aqui, para entender que tudo isso é mais que verdade, para uma mulher MUDA TUDO!

Por isto eu hoje respeito inteiramente a decisão de não termos mais filhos, eu respeito-a acima de tudo.

Nheko: Como é que vocês se conheceram?

Marcos: A minha mulher é jornalista e eu também, nós nos conhecemos na rádio em 2003, faz 14 anos.

Eu era locutor e ela repórter, nós apenas nos conhecíamos de voz, na altura não havia forma de encontrar ninguém na internet, não havia facebook, até que eu dia eu estava no corredor da rádio e ela saiu do banheiro, nos cruzámos e pronto! Foi uma espécie de grande identificação, rapidamente nos juntámos, fomos morar juntos e um ano depois ela engravidou.

Nheko: O pai tem licença de paternidade no Brasil?

Marcos: 3 dias. Algumas empresas dão 20 dias. Eu sou da opinião que o pai deveria ficar 5/6 meses, só assim estariam juntos cuidando, haveria uma verdadeira partilha e certamente iam diminuir os números de depressões pós parto nas mulheres.

Esta minha opinião provoca muita estranheza e resistência, um amigo meu falou  “Mas se fosse assim o meu chefe não me iria promover, ia achar que eu queria era estar em casa sem querer trabalhar…” e eu falei: “Pois é isso mesmo que as mulheres sentem, é essa pressão que se abate sobre elas. Você ia sentir igual a todas as mulheres que têm um emprego e que são mães.”

O Brasil é uma sociedade muito machista ainda, no Brasil se um homem decide fazer uma vasectomia ele é livre de a fazer, já uma mulher para laquear as trompas necessita de autorização do marido, como se este fosse o proprietário do seu corpo.

No Brasil há números absurdos, no Rio de Janeiro a percentagem de bebés que nascem nos hospitais públicos sem ter um pai registado é de 60%, é um número impressionante, são mães solteiras pobres que não vão conseguir sair de um ciclo vicioso, elas não vão poder trabalhar para ganhar dinheiro, elas não têm apoios, elas não têm soluções.

Nheko: As receitas das vendas dos teus livros revertem na integra para instituições de cariz social ligadas a crianças, isso é uma forma de procurar contribuir para um mundo melhor?

Marcos: Nós ajudamos vários tipos de instituições que trabalham com crianças, instituições certificadas governamentalmente e que apoiam vários tipos de problemáticas desde as que trabalham com crianças com paralisias cerebrais e que foram abandonadas pela família, às que apoiam crianças com problemas respiratórios, dificuldades de locomoção, agora vamos começar a ajudar o maior hospital pediátrico do Brasil que fica na cidade para onde nos mudámos e isso permite também estar mais perto e implicar as nossas filhas nesta vertente. Elas vão connosco visitar, ficam a conhecer, se ligam a estas pessoas, alargam o seu mundo, a Anita, que é a mais velha já quer fazer voluntariado e isso para nós é muito importante, tudo isto fica a fazer parte da vida delas também.

Nheko: E como é a vossa dinâmica familiar, como é um dia TOP ?

Marcos: Na cidade onde vivíamos, um dia típico era, acordar, tomar café da manhã e levá-las para a escola, seguir para trabalhar, quando voltava elas já estavam em casa e seguia-se a janta, os banhos, histórias e dormir, nessa altura eu voltava para o computador para trabalhar mais. Há três coisas das quais eu abdiquei para ser um pai mais presente: Horas de sono, happy hours com amigos e reuniões demoradas que não dão em nada, saio fora e peço para depois me informarem das decisões.

Entretanto nós nos mudámos com o principal objectivo de ficar mais tempo com elas e hoje eu trabalho à distância, eu tenho um microfone com que participo na rádio, eu escrevo à distância para os jornais e eu cancelei o meu contrato com a Globo para não precisar de viajar tanto.

Hoje, na nossa vida nova, eu levo as meninas para a escola a pé, primeiro a Anita, às 7h30, depois volto e às 9h a Aurora, volto para casa e pego a Anita ao meio dia, voltamos para casa, eu participo na rádio à tarde e tenho tempo livre para escrever, para ficar com a Anita, para sair para passear e às seis da tarde pego a Aurora.

É maravilhoso poder passear assim de mão dada, ouvir as suas histórias, a Aurora está numa fase maravilhosa, inventa piadas, é lindo, a minha vida ficou tão mais leve.

A minha mulher trabalha em projectos super interessantes, no semestre passado trabalhou para criar uma escola de idiomas para emigrantes, ela focou em capacitar emigrantes para dar aulas no seu idioma natal e implementou isso em Campo Alegre, agora está dedicada a um outro projecto incrível com o qual eu estou a aprender imenso, tem a ver com traduzir para uma linguagem comum os avanços científicos de topo que estão acontecendo na área da educação e pedagogia, relativamente ao comportamento das crianças, porque mentem, porque batem, os castigos. É um projecto maravilhoso.

Nheko: O Brasil é grande referência mundial na área da Arte Educação, é algo que faz parte das vossas vidas?

Marcos: Sim, as meninas praticam música, pintura, meditação, discutimos muito o mindfulness, a capacidade de nos focarmos.

O nosso novo apartamento é muito simples mas temos uma parede especial que acolhe os trabalhos artísticos delas, a Anita faz uns cartazes incríveis, não há coisa mais bonita! A arte é muito importante para as nossas vidas, os livros são fundamentais, adoro ler e folhear livros em conjunto com elas.

Nheko: Pensas que cada vez há mais gente que procura esta mudança de atitude face à paternidade e à vida em geral?

Marcos: Eu acho que somos meio vanguardistas e que estamos muito na frente, parece-me que ainda vai demorar uns 10/20 anos para que se encontre um equilíbrio generalizado e que se abrande o ritmo de correria para ganhar dinheiro e usar desenfreadamente a tecnologia. Mas acredito que são estas coisas que vão trazer uma geração melhor com pessoas mais comprometidas, mais gentis, mais conscientes.

Uma coisa que eu acho fantástica é que muitas aprendizagens importantes que faço são provocadas e oferecidas pelas crianças, pelas minhas filhas, elas com a sua simplicidade levam-nos a perceber o que realmente importa, trazem-nos o foco necessário.

Nheko: As coisas mais importantes da vida não custam dinheiro?

Marcos: A nossa opção foi mesmo no sentido de procurar uma vida mais simples que nos permita ter o tempo necessário para uma escuta verdadeira, para vivermos centrados e focados no mais importante, para termos tempo para nós. Mas esta é uma opção que não é compreendida por todos, muitos amigos meus falam que eu sou louco, que estou abdicando de uma carreira muito importante, desperdiçando as melhores oportunidades… eu nunca conheci ninguém que no fim da vida se tenha lamentado por não ter sido um executivo melhor, ou por não ter reunido mais… no final isso não vale mesmo nada.

Nheko: Em relação às tuas filhas o que é que te deixa mais nervoso, ou o que é que te provoca maiores “dores de crescimento”?

Marcos: Eu vivo me preparando para a adolescência delas… eu sou e quero continuar sendo amigo e confidente das minhas filhas, eu sei que elas vão ter de viver as coisas na primeira pessoa, por elas mas eu acho que há formas de manter a nossa proximidade, de ajudar em situações que nós já vivemos, por exemplo, a minha filha ainda não começou a beber mas eu já lhe expliquei que uma boa solução é você beber de forma meio fingida, assim você vai ficar sempre com domínio sobre a situação e ainda vão achar que vocês aguenta muito. Estas pequenas coisas promovem a cumplicidade e te mantêm num bom lugar.

Certo dia eu perguntei a um amigo que tem uma filha adolescente como estava a ser, ele me disse que era um bom confidente da filha, que falavam de tudo sem tabús e que ela tinha um namorado, ela disse para o pai estava louca para tranzar com ele, para fazer amor com o namorado, aí o meu amigo, o pai, perguntou à filha se ela sabia o que era um “chuveirinho”, se ela já tinha lido sobre masturbação feminina, e que ela podia experimentar e não se sentir pressionada para ter sexo, mas se achasse que era altura que o fizesse em segurança.

Eu pensei: esse cara é o meu ídolo, que capacidade incrível!

Eu quero ser esse pai, um pai que entende e que acima de tudo não limite o potencial dos filhos.

Nheko: E o que é que te fez chegar aqui, ter este click?

Marcos: Foi um percurso de vida, mas a proximidade da morte é uma experiência que te faz procurar o verdadeiro sentido da existência. A minha mãe teve um câncer e vivi esse medo, pensei que a podia perder e depois pensei também que se não cuidasse e não valorizasse a minha mulher a podia perder também e consequentemente a rotina com as minhas filhas, tudo isso fez-me pensar verdadeiramente sobre o que é quer eu quero para mim. Perder trabalho é tranquilo, perder a família, nunca!

 

FONTE: http://www.nheko.pt/